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Batucada Tamarindo

CHRISTIANE GOMES

Os batuques, as palmas e o gingado que acompanham boa parte das manifestações festivas da comunidade negra afro-brasileira entorno de uma comemoração, homenagem ou devoção (religiosa ou profana), são elementos culturais herdados dos povos africanos que, em terras brasileiras – perseguidos pelo regime colonial, controlados pela igreja e violentamente reprimidos pelos senhores de engenho – foram em boa parte ressignificados, ganhando cores, sabores, temperos e tambores bem particulares.

Respeitando a comprovada e fundamental influência dos povos indígenas e europeus na construção dos elementos que constituem a chamada identidade nacional, é certo também que parte das festas e tradições culturais que aqui se desenvolveram e se popularizaram só foram possíveis em virtude da presença africana no país. Como é o caso das festividades religiosas entorno de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, bem como o Maracatu, o Congado, o Jongo, o próprio Carnaval, entre outros.

E falando em Carnaval, a história da música nacional nos mostra que foram os batuques ecoados das reuniões noturnas que ocorriam as escondidas nos fundos das senzalas e posteriormente nos quintais das casas das famílias negras, que deram origem não apenas ao samba, mas também a diversas outras manifestações de bambas. Tia Ciata, por exemplo, não nos deixa mentir.

Nos dias de hoje, na contemporaneidade, palavra tão em voga ultimamente, estes mesmos batuques e encontros festivos da comunidade negra seguem como ambiente frutífero da música negra brasileira. Prova viva da efervescência e riqueza dessa tradição está, por exemplo, no depoimento do músico Maurício Badé, que em uma dessas reuniões da raça teve o estalo para começar um projeto que há muitos anos sentia o desejo de tocar: um grupo percussivo que reunisse a tradição rítmica africana a elementos culturais contemporâneos da diáspora negra. Assim nascia a Batucada Tamarindo.

O ano era de 2006 quando eram constantes as festas na casa de Márcio Monjolo, irmão de Maurício e que também integrou a formação inicial do grupo. Nestas festas, o tambor comia solto, fazendo inevitavelmente, a alegria de quem lá estava. “A gente precisava de um grupo que representasse a pegada que rola nestas festas de quintal e que pudesse chegar a mais pessoas e lugares”, conta Badé.

Com uma extensa bagagem profissional que inclui trabalhos com artistas como Mestre Ambrósio, Céu, Arnaldo Antunes e Criolo (com ele, tocou junto com o mestre etíope Mulatu Astatke), Badé, mentor-fundador do grupo, divide as batucadas no couro com outros percussionistas igualmente experientes: Mestre Nico (Siba e a Fuloresta, Beto Villares e Alessandra Leão), Rômulo Nardes (Bixiga 70 e Djembedon), Abuhl Júnior (Curumin e Coco Seco), Ilker Ikesaki e Alysson Bruno (Orquestra Heartbreakers e Aláfia).

Quando a Batucada surgiu oficialmente, estes músicos e seus tambores já tinham uma história de pesquisa e dedicação às infinidades de ritmos de influência africana surgidas no Brasil, além de já se conhecerem e tocarem juntos não apenas em apresentações e shows, mas também nas aulas de dança do bailarino e coreógrafo Irineu Nogueira, que até então estava na cidade de São Paulo. O leque de possibilidades era imenso: samba de roda, afoxés, sambas do recôncavo baiano, cavalo marinho, partido alto. Mas o que fazer com tudo isso? Como organizar tantas influências e tanta riqueza musical? Badé conta que a responsabilidade de mexer com estes ritmos é imensa, o que exige calma e respeito. Afinal, há muita coisa deste tipo no mercado e a Batucada Tamarindo não quer ser apenas mais um. “Não queremos cair na mesmice, queremos fazer diferente”, afirma o pernambucano apaixonado pela Bahia como ele mesmo se define.

E este “fazer diferente” é algo pensado e pesquisado pelos integrantes da Batucada, sem sangrias desatadas. De primeira, o processo começou internamente, ou seja, enxergar o que cada um tinha de conhecimento, o cerne de cada um para que individualmente cada músico pudesse mostrar o que coletou em suas trajetórias e experiências musicais. Afinal, todos os integrantes têm uma intensa vivência com tradições. Ao compreender, tocar e trocar mutuamente estas influências, os Batuqueiros fortalecem a percepção do que pretendem com este trabalho em uma pesquisa que não cessa nunca, em uma investigação orgânica e coletiva que acontece no cotidiano destes músicos. “Ao longo do tempo venho buscando um aprimoramento pessoal e musical do qual ainda não havia feito e a Batucada Tamarindo, nesse período, me proporciona essas pesquisas. Estamos buscando essa inter-relação com toda musicalidade que os integrantes têm, isso que deixa o trabalho com uma assinatura muito forte”, conta Abuhl Júnior.

SE É PRA FAZER DIFERENTE….

Ver uma apresentação da Batucada Tamarindo é uma experiência que acessa uma memória ancestral de uma forma fora do lugar comum. Os sons dos tambores e das vozes, ao mesmo tempo em que remetem a algo tradicional, também vem com uma roupagem moderna que quebra alguns padrões que o público pode estar acostumado ao assistir (e sentir) uma apresentação de um sexteto de percussão. A levada do batá (tambor cubano) está ali junto com um canto de Ketu (uma das mais populares nações do Candomblé), dialogando com um surdo de samba ou, em outro momento, com o djembé e dununs (tambores africanos). E assim a mistura se faz. Algo diferente é verdade, mas que nos toca, porque também é nosso.

“O que mais me despertou a vontade de fazer parte desse grupo, foi o encontro com as diferentes formas de musicalidade e a oportunidade de aprendizado, tendo bases de música tradicional Malinke (oeste da África), candomblé Nagô, Ketu, Angola, toques tradicionais do candomblé de Cuba, afoxés da Bahia e Pernambuco, sambas tradicionais de várias partes do Brasil, criando uma infinidade de formas de estudos, criação e misturas, nos fazendo particularmente um grupo de música com um repertório amplo e de infinitas possibilidades”, festeja Alysson Bruno.

Quando fala sobre as influências e pesquisas que guiam a Batucada Tamarindo, Badé faz questão de afirmar sempre o termo percussão brasileira, que em nada tem a ver com sonoridades folclóricas. A diáspora negra fez quem com que a influência africana chegasse a espaços distintos nas Américas, mas que guardam semelhanças que a ancestralidade reconhece na hora. Mas é bom deixar aqui bem marcado que memória ancestral, neste caso, não esta relacionada a algo antigo, estritamente tradicional. Badé é categórico: a Batucada Tamarindo não quer cair no óbvio, não quer ser um grupo de música tradicional, mas sim agregar os temperos e sabores tão ricos e diversos da música negra. “É um grupo que o Femi Kuti pode chamar pra tocar, que o Lenine pode convidar para acompanhá-lo. Eu quero que a gente tenha o nosso trabalho autoral, usando de um glossário de música percussiva brasileira. E uso este termo para enfatizar as diversas influências que temos. Porque o negro brasileiro é isso: influência de inúmeros lugares. O mesmo cara que manda suas rimas no rap também sabe bater um samba de roda na palma da mão. E essa diversidade para a Batucada é também, um posicionamento político”, enfatiza.

Nesse caldeirão de ritmos negros, algumas influências são norteadoras do trabalho. O cantor, compositor e repentista baiano Bule Bule; o mestre Gilberto Gil; o Samba Chula de São Braz (região do Recôncavo Baiano); as bandas pernambucanas como Mestre Ambrósio, (expoente do Movimento Manguebeat da década de 90, da qual Maurício Badé fez parte) e Chão e Chinelo. “Além da postura política de cada um destes grupos e pessoas, isso aqui já dá uma África, um Brasil que dá muito pano pra manga pra ler e reler”.

NO TABULEIRO

O grupo pensa com estratégia. Tocar por tocar não está entre os valores dos seus integrantes. Os constantes encontros semanais para a percussão das aulas de dança, que seguem sendo desenvolvidas hoje com as bailarinas Janette Santiago e Luciane Ramos (que também é integrante do Conselho Editorial de O Menelick 2ºAto), propicia e beneficia a sintonia entre os Batuqueiros. O mundo lá fora exige, mas o estar junto, para Badé é alimento, treino e resistência. E é isso que faz com que eles se entendam apenas com um olhar. “A gente debate e reflete muito e sempre sobre a nossa estratégia musical. Toco de graça, toco ganhando, mas sempre equilibrando e pensando lá na frente”, vislumbra.

Nesse pensar estratégico, um passo é dado de cada vez. Para se ter uma ideia, o grupo, que já tem oito anos de estrada, ainda não possui CD gravado. Assessoria de imprensa, releases, sites e página em redes sociais também não constam. Para ser ter uma ideia, a OM2ºAto é o primeiro meio de comunicação que a Batucada concede uma entrevista.  E isso em nada tem a ver com levar o trabalho em “banho-maria”. É uma opção calculada, bem marcada. “Eu digo que este nosso trabalho é o nosso bibelô. Eles (os outros músicos) dão risada, mas é isso. A Batucada Tamarindo é aquela pedra preciosa que se guarda dentro de uma caixa embaixo da cama. Uma hora a gente vai tirar ela de lá e colocar para todo mundo ver”, diz Badé.

E tudo indica que este momento de revelação está bem próximo. Para Maurício o ano de 2014 se mostra como um período de mudanças efervescentes que tem tudo para ser só positividade. Chega o momento então de retomar alguns projetos, como o Batucadança, uma festa de quintal, que atendia à expectativa de um público que buscava música, comidas, bebidas, discotecagem, tambor e alegria. Realizada em 2008,  a festa sempre acontecia em um sábado ou domingo à tarde e fazia a felicidade da geral. A ideia é voltar com a festa de forma regular em 2014. Outro projeto é, finalmente, gravar o esperado disco, afinal repertório é o que não falta.  Nos planos também está intensificar o trabalho com bailarinos e coreógrafos, tocando ao vivo nas aulas de dança, uma importante contribuição da Batucada Tamarindo.

Por falar em dança, alguns dos batuqueiros, como os percussionistas Alysson Amaral e Mestre Nico, além do próprio Badé, quem diria, são exímios dançarinos. Corpos diferentes, de áreas diferentes, que conhecem de dança negra e popular e que se conversam e se costuram. Bailarinos convidados já participaram das apresentações da Batucada, como Rubens Oliveira, Priscila Paciência, Arlete Alves, mas neste ano, a ideia é os batuqueiros possam largar seus tambores por um estante e mostrar seu requebrado na pista ou no palco. 

PRETO BEM TRAJADO, ELEGANTE, CHARMOSO

Os Batuqueiros da Tamarindo também se apresentam na estica, com figurino próprio. Nada de “regatinha” ou camisa pólo, já avisa Badé. Afinal a forma também faz parte do conteúdo. Ele conta que esta relação com a roupa vem da infância, quando observava seus pais saírem todos trabalhados na elegância, com camisas de seda e calças de linho para dançar na gafieira. Essa preocupação com a moda e o figurino está estritamente ligada à reconfiguração e a postura do negro na sociedade. O pernambucano lembra que essa ligação sempre existiu, tendo sido perdida durante o período da escravidão. Basta saber que, nas tribos e povoados da África, tanto a vestimenta cotidiana quanto a ritualística eram caracterizadas pelo requinte e bom gosto. Quando estes negros escravizados no Brasil chegaram, tudo, inclusive suas roupas, lhe foram negadas. Badé destaca que “erguer a cabeça e assumir a postura é essencial” e que por isso trouxe a preocupação com as roupas para a Batucada. Uma parceria com o estilista João Pimenta está em curso, inspirado na vestimenta dos Ogans (homens que tocam os atabaques nas casas de candomblé), dos grupos cubanos e afoxés.

Forma e conteúdo juntos e conectados. E Badé avisa: “se a estética precisa estar bonita a música tem que estar maravilhosa; o canto impecável; a dança, sublime”.

Fiquem tranquilos Batuqueiros da Tamarindo. Está tudo sob controle.

CHRISTIANE GOMES é jornalista, mestra em Comunicação e Cultura pela USP e coordenadora do corpo de dança do Bloco Afro Ilú Obá de Min.